19 novembro 2009

Uma crônica de fé ou Vai ser ecumênica assim lá em casa... E haja fé!



Quando nos casamos, ela cismou que queria um canto de orações. Muito crédula, acredita até em Papai Noel... Queria porque queria um oratório dizendo que seria um ponto de fixação de boas energias e equilíbrio no lar... Eu que não acredito muito nessas coisas, acabei concordando e instalando-o logo à entrada da sala.

O primeiro objeto que ganhamos para compor o oratório – que consiste em um pequeno aparador com duas gavetinhas – foi um crucifixo, dado pela minha mãe. Ao nos mudarmos o crucifixo foi rapidamente para o alto do oratório. Afinal, Jesus Cristo é Jesus Cristo tem seu lugar garantido ao lado de Deus Pai Todo Poderoso Amém! Em seguida vieram os livros, livretos e algumas “bagulhadas” que, rapidamente, encheram as gavetas. Em uma encontra-se “O Evangelho segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, dado pelos pais dela, que é lido todas as segundas-feiras à noite, juntamente com um livrinho chamado “Minutos de Sabedoria”, presente de Lelé e Ivete, de onde ela tira mensagens mágicas, digita-as em letras coloridas, transcreve para a agenda, manda para os amigos... mas não cumpre uma linha sequer.

Junto a alguns livrinhos de auto-ajuda como “O livro das atitudes” e “Histórias para aquecer o coração” é possível encontrar uma cartilha de umbanda com a história dos santos, os pontos de macumba e os significados dos rituais: um verdadeiro livro didático espiritual. Para quem já gosta de teorias e fichamentos é um prato cheio. Há também um cinzeiro, usado de vez em nunca pela Déia, que quase não aparece, e um monte de remédios homeopáticos, fitoterápicos, alopáticos e outros “áticos” mais... Um verdadeiro arsenal para combater todas as doenças do mundo. Pois é, apesar da fé infinita, ela tem mania de doença. É rinite, enxaqueca, TPM e outros males mais que só não atrapalham o casamento porque o verdadeiro santo desta casa sou eu. Pena que ela ainda não tenha se dado conta disso...

Os remédios migraram pra lá há pouco tempo, pois eram tantos que não havia mais lugar para eles, que se espalhavam pelos quatro cantos da casa. Viam-se mais frasquinhos e comprimidos por aí do que paredes, acredita? Só para se ter uma idéia. Aí, ela resolveu colocar a linha de frente dos medicamentos na gaveta do oratório para receberem uma forcinha a mais da espiritualidade. Só não entendo porque a cura nunca acontece.

Na outra gaveta há uma penca de incensos de tudo que é cheiro e pra tudo que é coisa: meditação, estresse, paz espiritual... só não encontrei um para unha encravada, ainda, mas talvez, se procurar direitinho, eu acho. Ah! Tem uns charutos que a minha prima Tatiane indicou para ela acender e passar pelo corpo em caso de enxaqueca. Nossa Senhora! Quando ela acende aquele negócio que leva o nome de mocha bastão, quem canta pra subir sou eu. A casa fica toda empestada com aquele cheiro de pai-de-santo que só falta a batucada para eu me sentir em pleno terreiro de macumba. Sabe o que é pior? Com tudo isso a dor de cabeça nunca passa e o santo aqui é que tem que levá-la para o dr. Maricá. Eu mereço! Eu mereço!

Junto aos incensos tem também umas fragrâncias para perfumar o ambiente e trazer bons fluidos, umas lembrancinhas de batizados de filhos de amigos, um buda dado pela tia Regina (a grande guru dela), um porta incenso de pedra sabão que o Marquinhos nos deu, e a gaveta se completa com dois saquinhos brancos que trazem uma moeda de 5 centavos costurada no fundo. Nem dá pra tirar na hora do aperto para completar a passagem do ônibus. Esses saquinhos vieram do meu sogro, com uma simpatia para ficar rico... Ele fez a simpatia e nós é que tivemos que receber os saquinhos. Pode? É óbvio que não demos continuidade à simpatia. Mas os saquinhos ficaram lá, ocupando espaço na gaveta e recebendo sua cota de bênçãos e orações. Até hoje meu sogro não ficou rico, muito menos nós.

Em cima do oratório é que tem uma verdadeira festa ecumênica sob o atento olhar de Jesus Cristo, “olhai por nós”: a oração do anjo da guarda junto à sagrada família (ambos presentes da minha mãe, católica fervorosa, apostólica romana de carteirinha e coração). Ao lado há uma imagem de Padre Cícero que ela recebeu de um amigo cearense (outro historiador de fé, o Régis). Mais a frente tem o anjo da guarda que Alana, amiga do trabalho deu de aniversário. É... o desejo de chegar ao paraíso a qualquer custo já é bem conhecido entre amigos, parentes e por todo o Brasil.

Entre os presentinhos que enfeitam o oratório encontramos também um rechô que o Rafael Zamorano deu de aniversário para queimar as essências purificadoras, uma vela vermelha que a Raquel (Racô) ofereceu, dizendo que era bom para fortalecer o amor, e outra vela, esta de cor amarela, dada pela tia Regina que enfatizou suas potencialidades de concentração e alegria. Apesar de suas propriedades, fato é que o rechô e as velas só são acesos quando falta luz na roça. Vocês sabem como é a Ampla, né? Basta ventar para a luz cair.

Tem um vidrinho com sete conchinhas pescadas na praia de Itacoatiara. Não sei muito bem pra quê, nem por que, mas estão lá, ao lado de uma foto dos nossos pais presenteada por tio Jorge e tia Dina. Há duas fotos nossas. Uma delas é a primeira que tiramos juntos, clicada por Rodrigo Mechas... acho que é a foto mais bonita que temos de todas as que tiramos nesses dez anos... merece ser abençoada! A outra nos mostra envolvidos em uma guirlanda bem colorida. Pois é, quando nos casamos, meu cunhado fez questão de me agradecer por ter tirado a irmã dele de casa, e nos ofereceu um colar de flores gigante que restou de uma cerimônia Hare Krishna. É para que a nossa união dure o tempo necessário para ela não voltar mais ao lar dos pais enquanto lá ele estiver. A gente arruma cada cunhado nessa vida, né? Hare Bol!

A mais nova aquisição para o oratório é um gaucho trazido pelo primo Thiago da Argentina. Não sei muito bem em qual ramo da fé ele atua, mas tá lá... Na hora do aperreio apela-se pra ele também... Ah! E a mais nova santa do pedaço é minha aluna, Ana Carolina, que fez quinze anos outro dia e a lembrancinha da sua festa foi parar lá no espaço sagrado da casa. É um retratinho dela na moldura em formato de coração. Mas o que pedir a uma menina tão jovem, heim? Não faço a menor idéia!

Enfim, seja bem-vindo(a) ao lar doce (e abençoado) lar, de Aline e Romney... E caso tenha alguma imagem de santo ou qualquer buginganga esotérica, aceitamos doações. Mas se você é ateu(ia), é melhor entrar pela cozinha.

Romney Lima por Aline Montenegro

A crônica  foi escrita em um processo inédito de psicografia de uma pessoa viva. É verdade! Romney Lima "incorporou" em sua mulher Aline Montenegro e esse texto saiu. Na hora ele estava dando uma aula no centro da cidade do Rio de Janeiro e nem se tocou de que estava, ao mesmo tempo, escrevendo essa crônica por intermédio dos trabalhos mediúnicos da sua esposa...


2 comentários:

alinemontenegro disse...

Wallace, obrigada pela publicação desta crônica que, no fundo, é uma celebração à vida a dois, com muito amor, cumplicidade e, especialmente, paciência. Beijos com saudade.

alinemontenegro disse...

Ah! E achei perfeita a imagem escolhida para ilustrar.
Mais uma vez, obrigada!